PANORAMA HISTÓRICO DA DISCUSSÃO ENTRE LIVRE-ARBÍTRIO E PREDESTINAÇÃO
Ricardo D’Angelis do Rosário[1]
RESUMO: Este artigo busca entender a discussão entre livre-arbítrio e predestinação. Demonstra através de pesquisa bibliográfica um panorama histórico dos principais defensores de cada posicionamento e alguns pontos da discussão. Apresenta o período da Reforma Protestante e a ortodoxia ocorrida como necessária à afirmação doutrinaria e seu fortalecimento. O caminho iniciado por Aristóteles, seguido por Pelágio e culminado em Armínio foi combatido por Santo Agostinho, Lutero e Calvino, ainda que os dois últimos divergissem em alguns pontos. E finalizamos com o entendimento de que a soberania de Deus e o livre-arbítrio não se excluem mutuamente uma vez que, a criatura não pode exercer nenhum tipo de pressão sobre seu criador.
PALAVRAS-CHAVE: Predestinação; Livre Arbítrio; Arminianismo; Calvinismo; Luteranismo.
1. INTRODUÇÃO
A busca pela solidificação do cristianismo e a implantação da Igreja cristã cobrou dos seus proponentes um posicionamento argumentativo para solidificar e afirmar sua identidade, tendo início na época de Jesus no rompimento com o judaísmo, seguido pela patrística[2], que Cavalcante (2005, p.157), define como “autores da antiguidade que escreveram fundamentalmente sobre temas de teologia e correlatos, com o propósito de apologia da fé ou de construção da própria identidade intelectual e teológica da fé cristã”.
No decurso de toda a história da Igreja houve discussões no processo de afirmação como bem retrata Cairns:
A polêmica, que se refere a luta da Igreja para combater a heresia e manter firme a sua proposição, é um importante aspecto da história da Igreja. E nela está envolvido o estudo das heresias adversárias e a formulação de doutrinas, de credos e da literatura cristã como respostas às heresias. A literatura dos Pais da Igreja é um campo extremamente rico para o estudo da polêmica, sejam os escritos de Justino Mártir, respondendo a argumentação de que o Estado era tudo na vida, ou o pensamento de Irineu, mostrando as heresias em que incorriam os vários tipos de gnosticismo. A maioria dos sistemas teológicos nasceu num período de luta para enfrentar as necessidades presentes. As épocas entre 325 e 451 e entre 1517 e 1648 se caracterizaram pela presença polêmica. Calvino desenvolveu seu sistema teológico na intenção de uma teologia bíblica que não apresentasse os erros do catolicismo romano. (CAIRNS, 1995, p.20)
Os períodos de interesse e objeto deste artigo são justamente os descritos por Cairns, os quais retratam as discussões teológicas nas doutrinas da predestinação e livre-arbítrio. Nas épocas entre 325-451, Pelágio e Santo Agostinho divergiram, e entre 1517-1648, os luteranos, calvinistas e arminianos.
2. BREVE HISTÓRICO DO CONFLITO
Podemos levar historicamente a questão da liberdade humana até o famoso pensador Aristóteles cuja concepção seria de um ato livre da vontade inclinada pela razão. Abbagnano nos fala:
Embora a análise aristotélica do voluntarismo das ações pareça recorrer ao conceito da L. finita, a definição de voluntário é a mesma de L. infinita: voluntário é aquilo que é "princípio de si mesmo". Aristóteles começa afirmando que a virtude e o vício dependem de nós; e prossegue: "Nas coisas em que a ação depende de nós a não ação também depende; e nas coisas em que podemos dizer não também podemos dizer sim. De tal forma que, se realizar uma boa ação depende de nós, também dependerá de nós não realizar má ação" (Et. nic, III, 5, 1113 b 10). Isso já fora dito por Platão no mito de Er. Mas para Aristóteles significa que "o homem é o princípio e o pai de seus atos, assim como de seus filhos" (IBID). De fato, ''só para quem tem em si mesmo seu próprio princípio, o agir ou o não agir depende de si mesmo" (Ibid., III, 1, 1110 a 17); assim o homem "é o princípio de seus atos" (Ibid., III, 3, 1112 b 15-16). Essa noção de "princípio de si mesmo" é a definição da lei incondicionada, encontrada, p. ex., em Cícero: "Para os movimentos voluntários da alma não se deve procurar uma causa alheia, pois o movimento está em nosso poder e depende de nós: nem por isso é sem causa, visto que sua causa é sua própria natureza". (ABBAGNANO, 2007, p. 606)
No fim do século quarto surgiu o pelagianismo defendendo a capacidade do homem de decidir o seu futuro por livre-arbítrio, sem depender da graça de Deus. Pelágio da Betranha (350-423), conforme Anglin (2001, p.40) “negou a corrupção total da raça humana pela transgressão do primeiro homem, e ensinava que nós nascíamos em inocência”. Hurlbut (2002, p.100), nos apresenta Pelágio defendendo que “Sua doutrina declarava que nós não herdamos as tendências pecaminosas de Adão, mas que a alma faz a sua própria escolha, seja para pecar, seja para viver retamente”. Abbagnano nos diz que:
S. Agostinho combateu essa tese em muitas obras, a partir de 412, defendendo a tese oposta: de que toda a humanidade pecara com Adão e em Adão e que, portanto, o gênero humano é uma única "totalidade condenada": nenhum de seus membros pode escapar à punição a não ser por misericórdia e pela graça (não obrigatória) de Deus. (ABBAGNANO, 2007, p.749)
O tema favorito de Santo Agostinho, da livre graça de Deus marcou a oposição entre Calvinistas e Luteranos na Reforma, enquanto que as ideias de Aristóteles e Pelágio foram retomadas a partir de 1600 com o surgimento do arminianismo[3]. Sobre a disputa entre calvinistas e arminianos Nogueira nos diz:
João Calvino (1509-1564) elaborou de forma bíblica e sistemática a Doutrina da Eleição Divina, embora outros reformadores também a ensinassem como Lutero e Zwínglio. O holandês Jacob Armínio (1560-1609) discordou de Calvino e defendia que Deus escolhia os que Ele antes tinha visto que iam aceitar a Jesus Cristo como Salvador. E que o homem, depois de salvo, pode vir perder a sua salvação por causa do seu pecado. O Concílio de Dort, na Holanda, (1618-1619) condenou as ideias de Armínio e afirmou os principais pontos doutrinários desenvolvidos por Calvino. (NOGUEIRA, 2005, p.2)
Armínio foi aluno de Theodoro Beza, e até ser convidado a defender a doutrina Reformada dos questionamentos de outro professor holandês chamado Coornhert (1522-1590), não vacilava no seu posicionamento.
3. DIFERENÇAS ENTRE LUTERANOS E CALVINISTAS
Em relação à predestinação e o livre-arbítrio luteranos e calvinistas discordam entre si nos temas da situação do homem, eleição, expiação, graça e perda da salvação.
Em relação à situação do homem os luteranos afirmam que ele perdeu a imagem e semelhança de Deus e necessitam da ação do Espírito Santo. O expoente da doutrina luterana, John Theodore Mueller, nos fala sobre a situação do homem:
[...] dizemos que o ser humano não perdeu o seu livre-arbítrio com a queda em pecado; visto que, apesar de ser tão pervertido, o ser humano corrupto, que não pode senão pecar (non potest non peccare), não obstante, não peca contra a sua vontade, mas de livre vontade. Ele nunca é coagido a pecar, mas comete pecado por sua livre escolha. [...] A fim de distinguir o “livre-arbítrio”, neste sentido, da mera faculdade de querer, os dogmáticos chamaram-no liberdade espiritual (libertas spiritualis) ou liberdade material. Quando empregado nesse sentido, o termo “livre arbítrio”, baseados na Escritura, negamos energicamente que o ser humano, depois da queda, tenha “livre-arbítrio”. (MUELLER, 2004, p. 235)
Para os calvinistas os homens se encontram em um estado de depravação total, incapazes de se salvar ou escolher o bem em questões espirituais. Assim, nos informa Hodge (2001, p.627), ao dizer que do primeiro homem “Adão, e das consequências de sua apostasia, os três temas principais que se incluem são a imputação do primeiro pecado de Adão; a corrupção da natureza dele derivada; e a incapacidade do homem caído para qualquer bem espiritual”.
A eleição divina é incondicional segundo os calvinistas, de forma que dentre todos os humanos Deus escolheu um grande número de pecadores por graça pura, sem levar em conta qualquer mérito, obra ou fé prevista neles. Isto produz o fato da expiação limitada de Cristo apenas para os eleitos. Sobre isto, e contrariando os luteranos, Pink nos fala:
Quando se expõe o solene e bendito tema da pré-ordenação divina, e o da eterna escolha feita por Deus de algumas pessoas para serem moldadas à imagem do Seu Filho, o diabo envia alguém para argumentar que a eleição se baseia na presciência de Deus, e esta "presciência" é interpretada no sentido de que Deus previu que alguns seriam mais dóceis que outros, que responderiam mais prontamente aos esforços do Espírito e que, visto que Deus sabia que eles creriam, por conseguinte, predestinou-os para a salvação. Mas tal declaração é radicalmente errônea. Repudia a verdade da depravação total, pois defende que há algo bom em alguns homens. Tira a independência de Deus, pois faz com que seus decretos se apoiem naquilo que Ele descobre na criatura. Vira completamente ao avesso as coisas, porquanto ao dizer que Deus previu que certos pecadores creriam em Cristo e, por isso, predestinou-os para a salvação, é o inverso da verdade. As Escrituras afirmam que Deus, em Sua soberania, escolheu alguns para serem recipientes de Seus distinguidos favores (Atos 13:48) e portanto, determinou conferir-lhes o dom da fé. A falsa teologia faz do conhecimento prévio que Deus tem da nossa fé a causa da eleição para a salvação, ao passo que a eleição de Deus é a causa, e a nossa fé em Cristo, o efeito. (PINK, 1990, p.16)
Os luteranos defendem eleição condicional através da fé em Cristo com base na presciência divina, negando que isto seja um determinismo, porém contrários a qualquer ação humana a favor da salvação, contrariando calvinistas e sinergistas, conforme:
Todos aqueles que negam a gratia universalis (calvinistas) não têm fundamento em que firmar a sua fé; pois, se as promessas do Evangelho se limitam apenas a alguns poucos (os eleitos), como podemos saber se pertencemos ou não aos poucos eleitos? Contudo, não são só os calvinistas que limitam a gratia universalis, mas também os sinergistas, ainda que, em teoria, reconheçam a universalidade da graça divina. Na realidade, porém, os sinergistas limitam a graça salvadora de Deus aos que não resistem maldosamente ao Espírito Santo ou que cooperam em sua conversão. Consequentemente, nem o calvinismo nem o sinergismo podem tornar pessoa alguma segura de sua eleição e salvação. (MUELLER, 2004, p. 554)
A graça de Deus é irresistível para os eleitos e nenhum deles perderá a salvação segundo os calvinistas, e os ímpios recebem apenas providência comum conforme Pink (1990, p.71), “Podemos entender a extensão dos decretos divinos pelas distribuições providenciais, mediante as quais eles são executados. Os cuidados de Deus alcançam as criaturas, mais insignificantes”. Os luteranos defendem a graça universal e a perda da salvação se dá pela saída da Igreja invisível através do abandono da fé em Jesus Cristo. Em relação à graça universal, Mueller fala:
Na doutrina da conversão e da salvação (eleição), portanto, os luteranos confessam tanto o sola gratia como a universalis gratia, por estarem convencidos de que ambas as doutrinas são claramente ensinadas na Bíblia e de que rejeitar ou modificar qualquer delas importa em crítica à Palavra de Deus e, por conseguinte, ao próprio Deus. (MUELLER, 2004, p. 567)
4. DIFERENÇAS ENTRE CALVINO E ARMÍNIO
A tentativa arminiana de alterar as bases do calvinismo buscava retirar da autoria de Deus a visão da criação de um homem autômato. As diferenças entre arminianos e calvinistas são bem retradas por Cairns:
Armínio e Calvino ensinavam que o homem, por ter herdado o pecado de Adão, está sob a ira de Deus. Armínio, porém, cria que o homem era capaz de procurar a salvação antes mesmo de Deus lhe conceder a graça fundamental que habilita a sua vontade para cooperar com Deus. Calvino entendia que a vontade do homem fora tão corrompida pela queda que a salvação era uma questão exclusiva da graça divina. Armínio aceitava a eleição mas cria que o processo de salvar alguns e condenar outros tinha "seu fundamento na presciência de Deus". Ademais, esta eleição era condicional e não incondicional. Calvino, por sua vez, aceitava uma eleição incondicional feita por um Deus soberano, tanto para a graça como para a condenação. Armínio interpretava a morte de Cristo como suficiente para todos, embora só fosse eficaz para os crentes. Calvino limitou a redenção aos eleitos para a salvação. Armínio ensinava ainda que todos os homens poderiam resistir a graça salvadora de Deus. Calvino tomava esta graça como irresistível. Armínio respondia à insistência calvinista sobre a perseverança dos santos afirmando que Deus concedia aos santos uma graça tamanha que eles não precisariam cair, embora a Bíblia praticamente ensinasse que era possível ao homem perder a salvação. Armínio não quis fazer de Deus o autor do pecado nem o homem um autômato. Ele supunha que estas modificações no calvinismo eliminariam esses perigos da teologia. Só em 1618, até 1619, o sínodo se reuniu em Dort, constituindo-se realmente numa assembleia calvinista internacional, porque 28 dos 130 presentes eram calvinistas vindos da Inglaterra, de Bremen, do Palatinado, da Suíça e de outros países. Os 13 arminianos participaram do encontro na condição de defensores. Aprovados cinco artigos calvinistas contrários à Representação de 1610, os ministros que seguiram Armínio foram depostos de seus cargos. Só em 1625 cessou a perseguição aos arminianos. O arminianismo exerceu influência considerável sobre uma ala da Igreja Anglicana do século XVII, sobre o movimento metodista do século XVIII e sobre o Exército da Salvação. (CAIRNS, 1995, p.265)
Para Armínio Deus era soberano, mas isto não o tornava um ser rigoroso. Por isso ele não concordava com a determinação dos atos dos seres livres por Deus, e nem sua inacessibilidade pela capacidade humana, pois eram justamente imagem e semelhança de Deus. Afirmava que a revelação de Jesus Cristo é prova de Sua boa vontade que atestava a capacidade receptiva ou negativa dos homens. Ainda assim, considerava que a justiça de Deus não permitia que Ele próprio criasse algo mal por ele próprio querer que fosse mal. Ressaltando a relação de expressão e ação permanente de Deus, Strong nos fala que:
Contemplando as palavras e atos de Deus, assim como contemplando as palavras e atos do homem como indivíduo, somos compelidos a atribuir efeitos uniformes e permanente a uniforme e permanentes causas. Palavras e atos santos, argumentamos, devem ter sua fonte em um princípio de santidade; palavras e atos verdadeiros, em uma propensão para a verdade; palavras e atos benévolos, em uma disposição benévola. [...] Contudo, estas fontes de expressão e ação permanentes e uniformes a que aplicamos os termos princípio, propensão, disposição, porque existem de modo harmônico na mesma pessoa, devem ser inerentes e achar a sua unidade em uma subjacente substância espiritual ou realidade da qual são características inseparáveis e manifestações parciais. Deste modo, somos levados naturalmente das obras aos atributos e dos atributos à essência de Deus. (STRONG, 2003, p. 363)
Calvino destacava a soberania de Deus articulando tudo sob a dependência da Sua vontade e onipotência. Através do poder absoluto e por sua vontade Deus criou todas as coisas para um fim determinado, agindo soberanamente, de forma que se a alguns os predestinou para salvação e a outros para a perdição é porque julgou ser isto justo. Sobre esta diferença Berkhof nos diz:
As confissões reformadas (calvinistas) são notavelmente coesas na incorporação desta doutrina, conquanto não a apresentem todas com igual plenitude e precisão. Em consequência da investida arminiana contra a doutrina, os Cânones de Dort contém uma minuciosa exposição dela. Nas igrejas do tipo arminiano, a doutrina da predestinação foi suplantada pela doutrina da predestinação condicional. (BERKHOF, 2001, p.104)
A predestinação condicional ou infralapsarianismo, afirma que Deus só predestinou após a queda de acordo com sua presciência a atitude do homem frente à escolha ou não do ato de pecar, sendo a predestinação uma consequência do ato humano e não o resultado de um decreto preestabelecido por Deus.
5. POSICIONAMENTOS
Após a exposição histórica panorâmica das linhas de defesa dos adeptos do livre-arbítrio e da predestinação, veremos que no período observado da discussão determinados posicionamentos doutrinários eram tratados e incentivados a serem tratados como heresias ditas por falsos profetas, como retrada Mueller:
As divisões dentro da cristandade devem ser atribuídas a razões mais sérias. De acordo com as Sagradas Escrituras, são devidas a falsos profetas e apóstolos, os quais, em deslealdade para com a pura Palavra de Deus, disseminam as suas próprias noções perversas em nome da religião cristã e rejeitam as doutrinas específicas do Cristianismo, sobretudo a doutrina fundamental do Evangelho de que o ser humano é justificado pela graça por meio da fé, independentemente das obras da Lei. (MUELLER, 2004, p. 42)
O ponto forte na discussão dos posicionamentos está no fato de assumir que a soberania de Deus exclui a liberdade humana e vice-versa. Outro fator diz respeito à natureza humana decaída e na sua possibilidade de escolher tender para o bem livremente, parcialmente ou na sua impossibilidade, dependendo então de algo exterior a ele. Neste caso Mueller (2004, p.236), diz que segundo as confissões luteranas elas “ensinam que, em assuntos espirituais, o ser humano não tem livre-arbítrio, mas admitem, firmadas na Escritura, que a vontade do ser humano natural é livre em questões terrenas e, até certo ponto, no exercício da justiça civil”. Hodge traz objeções às teorias da liberdade humana ao afirmar:
Por um ato livre entende-se o ato de autodeterminação racional de uma pessoa inteligente. Se tal ato é de sua própria natureza contingente ou incerta, então é claro que a preordenação é inconsistente com a livre agencia. Esta teoria de liberdade tem sido adotada por grande contingente de filósofos e teólogos, e para eles é uma objeção insuperável à doutrina dos decretos divinos. Em resposta a objeção, pode-se observar: Que ela tem a mesma força contra a presciência. O que é conhecido de antemão deve ser certo, tanto quanto está preordenado. Portanto, se um é inconsistente com a liberdade, também o outro será. (HODGE, 2001, p.406)
Contrariando a afirmação de Hodge, sobre a inconsistência da liberdade com a presciência Strong (2003, p.426), coloca seu posicionamento desta forma: “A presciência não é em si mesma causativa. Não deve ser confundida com a vontade pré-determinante de Deus. As ações livres não ocorrem porque são previstas, mas são previstas porque ocorrem”.
Em relação à onipotência divina, Strong se posiciona dentro de uma base arminiana ao escrever:
A onipotência em Deus não excluí, mas implica, o poder de autolimitação. Porque toda essa limitação é livre, é ato e manifestação do poder de Deus. A liberdade humana não se torna impossível por causa da onipotência divina, mas existe em virtude dela. Há um ato de onipotência quando Deus se humilha e assume a carne humana na pessoa de Jesus Cristo. (STRONG, 2003, p. 429)
Hodge refuta este posicionamento que se reflete em alguns escritores que usam argumentos arminianos fornecendo as objeções que seguem:
Uma evasiva ainda mais fraca é aquela proposta por alguns escritores arminianos, os quais admitem que o conhecimento de Deus não é limitado por algo fora dele, mas sustentam que ele pode ser limitado pela sua própria vontade. Ao criar livres agentes, ele se dispôs a não conhecer de antemão como agiriam, a fim de deixar incólume a liberdade deles. Isso, porém, é presumir que Deus se dispôs a não ser Deus; que o infinito quis ser finito. O conhecimento, em Deus, não se baseia em sua vontade, exceto no que diz respeito ao conhecimento de visão, ou seja, o conhecimento de seus próprios propósitos, ou do que ele decretou que aconteceria. Se não se baseia na sua vontade, então não pode ser limitado por ela. O conhecimento infinito tem de conhecer todas as coisas, as reais e as possíveis. Não obstante, pode se dizer que há certa diferença entre presciência e preordenação, no sentido de que a primeira meramente supõe a certeza de acontecimentos futuros, enquanto a segunda causa a sua futurição. Visto, porém, que a certeza da ocorrência é a mesma em ambos os casos, não faz diferença alguma quanto à questão em mãos. O decreto só faz infalível o acontecimento; e por isso se a certeza não é inconsistente com a liberdade, então a preordenação também não é. (HODGE, 2003, p. 407)
Mondin sustenta que Deus não é limitado por ele mesmo ao fornecer a liberdade ao homem, pois a aquela é infinita, enquanto esta é finita, conforme:
Só Deus, enquanto liberdade infinita cria e, ao mesmo tempo, faz-se fiador daquela liberdade finita que ele doa ao homem e às outras criaturas espirituais. De fato, a liberdade humana (e pelos mesmos motivos, também a angélica) é um paradoxo: enquanto “liberdade”, é capacidade de escolha, é soberana sobre si mesmo e sobre os próprios atos, sobre as coisas do mundo e sobre as pessoas, e é criatividade; mas enquanto liberdade “humana” é irremediavelmente finita, incapaz de dominar tanto o mundo interior quanto o mundo exterior, impotente para escolher o que efetivamente aperfeiçoa o homem: em todas as direções, ela se encontra frente a insuperáveis barreiras. (MONDIN, 1997, p.393)
Mesmo sendo o homem livre, ele está sujeito à vontade graciosa, que é o desejo de Deus que todos sejam salvos pela graça, mediante a fé, e sob a justiça divina com a qual Mueller (2004, p. 177), diz que Ele “requer dos seres humanos o que é justo”.
6. CONCLUSÃO
A ação humana requerida por Deus só pode ser boa ou tender para o bem se resulta de uma decisão livre. Porém a possibilidade de uma boa ação é acompanhada da possibilidade de uma má ação, que não pode ficar impune, pois toda transgressão só exite se uma lei a condena. Para que haja a correta aplicação da lei é preciso a justiça. Consequentemente, recompensa e castigo, por meio da sociedade ou também por meio da divindade, são legítimas apenas quando o agente pode assumir como própria uma decisão correta ou ser responsabilizado por uma decisão errada.
Essa configuração permanece válida, qualquer que seja o que a psicologia empírica e a sociologia possam aduzir sobretudo contra as possibilidades de decisões livres. Dito de outro modo, a existência da liberdade é justamente tão pouco refutável e demonstrável de maneira imperativa como a existência da divindade. A confiabilidade do nosso saber não aumenta de forma mais ou menos proporcional à própria relevância da coisa, antes diminui, e nosso saber a respeito das coisas mais relevantes é o mais precário possível.
Assim, concordamos com Mondin (1997, p.315), quando afirma que “O amor divino é a causa universal de todas as coisas; por isso, o amor de Deus pelas criaturas existiu nele antes mesmo que as criaturas existissem: existiu em Deus desde toda a eternidade”. Desta forma, Deus concedeu ao homem a liberdade, e esta não exerce nenhum tipo de pressão sobre Ele, que é a causa primaria de todas as coisas, sendo que o seu amor e a sua justiça se manifestam sobre tudo no auxílio gracioso da salvação pela fé a todos quantos crerem livremente em Jesus Cristo.
REFERÊNCIAS
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 1ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
ANGLIN, W; KNIGHT, A. História do cristianismo: dos apóstolos do Senhor Jesus ao século XX. 11ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.
BERKHOF, Louis. Teologia sistemática. 2ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.
CAIRNS, Earle E. O cristianismo através dos séculos: uma história da igreja cristã. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1995.
CAVALCANTE, Ronaldo de P. Teoria agostiniana e reforma protestante: a sola gratia como nexo material entre o protestantismo inicial e os pais da igreja. Ciências da Religião - História e Sociedade. Revista Semestral do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Escola Superior de Teologia, São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, a.3, n.3, p.153-178, 2005.
HODGE, Charles. Teologia sistemática. 1ª ed. São Paulo: Hagnos, 2001.
HURLBUT, Jesse Lyman. História da Igreja Cristã. 14ª ed. São Paulo: Vida, 2002.
MONDIN, Battista. Quem é Deus? Elementos de teologia filosófica. São Paulo: Paulus, 1997.
MUELLER, John Theodore. Dogmática cristã: um manual sistemático dos ensinos bíblicos. 4ª ed. Porto Alegre: Concórdia, 2004.
NOGUEIRA, José. A doutrina bíblica da eleição. Informissões, Fortaleza: Cristo e vida, a. XVIII, n. 599, 30 out. 2005. Disponível em: . Acesso em: 07 set 2010.
PINK, A. W. Os atributos de Deus. 1ª ed. São Paulo: Imprensa da fé, 1990.
STRONG, Augustus Hopkins. Teologia sistemática. 1ª ed. São Paulo: Hagnos, 2003.
[1] Graduado em Gestão de Segurança Pública pela UNISUL e aluno do 2º período do curso de Bacharel em Teologia da Faculdade Evangélica do Paraná.
[2] Período que se estende do século II ao VII.
[3] O Arminianismo é um sistema teológico baseado nas ideias de Jacob Harmensz, mais conhecido pela forma inglesa como James Arminius ou Jacob Arminius. Jacob Armínius era um teólogo holandês, pastor da Igreja Reformada em Amsterdã e também professor de teologia na antiga Universidade de Leiden.